Leilões de lixo eletrônico pelo governo do estado

Não é a primeira vez que fazemos essa denúncia. A prática de leilões de patrimônio público obsoleto é uma prática prevista na lei de licitações, que aponta dois caminhos para o que não serve mais a qualquer instância do poder público: doação para instituições sem fins lucrativos ou venda através de leilões públicos. Até aqui, cumpre-se a lei. O problema é que a responsabilidade do Estado termina quando começa o leilão. O que se faz depois disso com os materiais vendidos não é da sua conta. Cumpre-se a lei?

Está em vigor desde 2010 no Brasil a Política Nacional de Resíduos sólidos. Ela traz entre seus princípios a co-responsabilidade a quem gera o lixo (consumidores) e quem produz alguns produtos, para os quais estabelece a logística reversa (cadeia produtiva que leva à reciclagem) de pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista, produtos eletroeletrônicos e seus componentes.

Desde 2009, no I Seminário Estadual de Resíduos Eletroeletrônicos, delineamos essa dificuldade, antes mesmo da lei nacional ser aprovada. Vários técnicos de prefeituras presentes apontaram essa dificuldade em se disponibilizar eletroeletrônicos da forma correta – para reuso e reciclagem. A prática continua e apresentamos um caso atual e flagrante dessa prática noestado.

De acordo com a nossa experiência com a reciclagem de sucata eletrônica somos capazes de dizer qual o possível interesse comercial de cada tipo de equipamento, através do seu valor de mercado que também pode ser verificado pelo preço das commodities (metais valiosos). E em contraposição a esse interesse, de lucro, os perigos materiais tóxicos também abundantes no lixo eletrônico. Sabemos que o interesse comercial é o único motivador da compra de um lote de leilão como esses, afinal trata-se de uma relação apenas comercial. Nenhum certificado de destinação final é exigido, nenhuma pergunta sobre o procedimento posterior é feita. O Estado, nesse caso o estado do Ceará exime-se de qualquer responsabilidade posterior.

Os procedimentos posteriores à compra em geral são os seguintes:

* fios e cabos são queimados a céu aberto, o que separa o plástico do cobre, o valor é de R$ 9,00/kg para a reciclagem. 

 Há ainda a desconfiança de que as notas fiscais emitidas no leilão sirvam para legalizar, ou “esquentar” cobre advindo de roubo de fios e cabos de telefone e energia da rede pública. Isso porque quando fazemos a conta ela simplesmente não bate. No último leilão, realizado com equipamentos do banco do nordeste, um lote de 2 toneladas de fios e cabos foi arrematado por R$ 8.800,00. Sabemos que desse peso, apenas 30% é de cobre, ou seja, R$ 600,00, que renderiam R$ 5.400,00 para o comprador. Por que alguém faria esse negócio?

 http://www.forumdaconstrucao.com.br/conteudo.php?a=28&Cod=102

 * Monitores e televisores

Monitores antigos, que não sejam de tela plana são na verdade tubos de raios catódicos. Fisicamente e basicamente são compostos por uma placa de circuito impresso com pouco valor de mercado, um reator de cobre. Geralmente, são essas duas peças retiradas deixando-se o resto exposto e sem tratamento: um tubo de vidro revestido com chumbo, que é bastante perigoso à saúde humana e o vidro da tela que por dentro é revestido com pó de fósforo.

Quem trabalha seriamente com a reciclagem de eletrônicos sabe que mesmo com as partes que tem algum valor, os monitores e televisores de tubo são um grande problema, porque há custo ao invés de valor agregado no tratamento do vidro com chumbo. É um processo caro e ainda são pouco estudadas a aplicação do vidro com chumbo resultantes, o que faz com esse material não gere receita, mas custo para quem recicla.

Um exemplo desse processo pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=bT2DOwvLQoE

Podemos afirmar com segurança que esse processo ainda não existe no Ceará, é preciso enviar para São Paulo quando se faz realmente a reciclagem de maneira responsável, o que eleva mais ainda o custo de tratamento.

A conclusão que se tira é que todos os monitores leiloados acabarão no melhor das hipóteses, no aterro sanitário, que não está preparado para o chumbo neles contidos, sendo possível que sejam despejados em lixões já que não há coleta regular desse tipo de equipamento.

TV deixada na rua em Fortaleza já sem cobre e placa. Restam chumbo e fósforo.

* Gabinetes, ou CPUs

O grande valor contido nele está nas placas de circuito impresso (placa-mãe) que contém metais preciosos como ouro, prata, índio e outros. Industrialmente pode ser muito bem aproveitada e já há no Brasil uma cadeia de intermediários bem estruturada que recebe esse material e o manda para destinos diversos no exterior, notadamente Béligica, China e outros países asiáticos. Porém, não se pode descartar que possa ocorrer outros tipos de tentativa de aproveitamento artesanal, que devem ser combatidas como o cozimento e tratamento com ácidos no processo, coisa que ocorre na Índia e na China a céu aberto, contaminando os trabalhadores e o meio ambiente.

Esse é o produto com maior valor agregado entre os eletrônicos. É considerado “o filé”, aproveita-se ainda discos-rigídos (HDs, contém o metal Índio, a fonte de alimentação (cobre), além do próprio gabinete.

* Ar condicionado, geladeiras

captura do site de leilões

É bastante conhecida a presença de gás CFC em equipamentos com mais de 10 anos de fabricação, época em que se proibiu o gás CFC na fabricação. Não se tem informação sobre a “idade” das geladeiras vendidas nos leilões, mas sabemos o que costuma acontecer quando uma delas chega à reciclagem informal – o problema do gás é simplesmente ignorado.

http://www.eletrodomesticosforum.com/videos_geladeira_gas.htm

* Outros

Também encontramos pneus e material veterinário entre os lotes montados.

Resta saber por que os órgãos públicos envolvidos não seguem a normativa da Secretaria do Planejamento e Gestão (SEPLAG), que em 2011 determinou os procedimentos corretos para resíduos eletrônicos e por que os leilões não são fiscalizados.

O GT de lixo eletrônico e a Câmara Setorial de Reciclagem denunciam em carta enviada para a SEMACE, CONPAM e Secretaria de Saúde e SEMAM, segue abaixo:

Fortaleza, 21 de novembro de 2011

Assunto: Denúncia de descarte inadequado de resíduos eletrônicos pelo governo do estado do Ceará.

Prezados (as) Senhores (as)

A lei de resíduos sólidos do Estado do Ceará 13.103 é antiga e não cita resíduos eletrônicos, no entanto eles podem se encaixar como resíduos especiais Cap. Vll Art.34. Já na Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei 12.305, determina que seja realizada logística reversa para esses resíduos que na lei  estadual caracteriza como resíduos especiais (mesmo caso das lâmpadas citadas).

Na PNRS no Art. 29 cita, Cabe ao poder público atuar, subsidiariamente, com vistas a minimizar ou cessar o dano, logo que tome conhecimento de evento lesivo ao meio ambiente ou a saúde pública relacionada ao gerenciamento de resíduo sólido.

Lei 13.103 CE Art. 43 Caberá aos órgãos ambientais e de Saúde Pública licenciar, monitorar e fiscalizar todo e qualquer sistema público ou privado de coletas, armazenamento, transbordo, transporte, tratamento e disposição final dos resíduos sólidos, nos aspectos concernentes aos impactos ambientais resultantes.

O relatório “Reciclando – Do lixo eletrônico a recursos”, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), aponta que a situação deve ficar pior nos próximos anos. A venda dos produtos eletrônicos crescerá muito na China, na Índia e em mais nove países representativos dos emergentes na África e na América Latina. O Brasil é apontado como o país emergente com maior quantidade per capta: 0,5kg por habitante/ano.


“Esse relatório mostra a urgência de estabelecer processos ambiciosos, formais e regulados para a coleta e a gestão do lixo eletrônico na China”, afirmou Achim Steiner, diretor-executivo do PNUMA, na divulgação do relatório. Ele chamou a atenção para o fato de que a China não está sozinha nesse desafio. “A Índia, o Brasil, o México e outros países também devem enfrentar danos ambientais e problemas de saúde se a reciclagem de lixo eletrônico for deixada às imprevisibilidades do setor informal.”

Situação já exposta em várias ocasiões em debates que contaram com a nossa colaboração, o estado permanece realizando leilões de equipamentos eletroeletrônicos sem observar o que preconiza a PNRS. Não há nenhuma exigência de comprovação do destino final dos lotes leiloados, não há sequer questionamento oficial sobre se trata-se de equipamentos servíveis ou inservíveis. Fato é que o interesse comercial em um leilão remete a uma lógica de mercado e conhecendo esse mercado, podemos afirmar que a maior parte do que é leiloado não recebe nenhum tratamento ambiental. O interesse é puramente o lucro e, portanto as partes tóxicas como chumbo, lítio, cádmio, berílio e outros serão descartados de forma incorreta, depois de retiradas as partes com valor agregado. 

 

Solicitamos posicionamento e orientação do CONPAM, SEMACE e demais órgãos ambientais sobre essa situação que continua a fazer parte do cotidiano de autarquias e órgãos públicos. Para se constatar um evento atual basta visitar o sítio: http://www.gracamedeirosleiloes.com.br/index.php/lotes/lista_lotes/3?c=lotes&m=lista_lotes&per_page=360 para flagrar diversos lotes com produtos eletroeletrônicos sendo vendidos sob a logomarca do governo do estado, o que além de ferir as leis nacional e estadual de resíduos citadas acima, fere a recente norma da Secretaria de Planejamento: RECOMENDAÇÕES QUANTO AS DOAÇÕES DE EQUIPAMENTOS DE TI – COETI / 2011.


Ver em: 
http://www.jusbrasil.com.br/diarios/30649169/doece-caderno-2-16-09-2011-pg-90

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Pontos para um Sistema de Lixo Eletrônico

Tradução e adaptação do original: Key aspects of an e-waste management system - A glimpse at the Swiss model @ “sustec – sustainable technology cooperation” of the Technology and Society Lab within EMPA daniel.ott@empa.ch



A Campanha do Lixo Eletrônico chama você a contribuir para esse debate no II Seminário de Lixo Eletrônico do Ceará. Nele, devemos discutir muito dos pontos abaixo.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, foi aprovada em agosto de 2010. Nela ficam resolvidas as responsabilidades pelo lixo eletrônico e outros tipos de lixos sujeitos à logística reversa (processo de desfazer um produto). Para estados e municípios cabe realizar planos de gerenciamento de resíduos, até 2014. Esses planos devem ser fruto de colaboração e acordos com entre entidades públicas e privadas, de acordo com as características locais. Atualmente há um grupo de trabalho no Ministério do Meio Ambiente, que pretende fazer um grande acordo com as indústrias fabricantes e distribuidoras de eletrônicos no Brasil. Localmente, esse debate apenas começa.

Está na lei que você, consumidor será responsável por entregar seu lixo eletrônico em locais indicados e divulgados. Você é responsável por não deixar seu lixo eletrônico ir para o lixo comum. As lojas onde compramos esses equipamentos são responsáveis por aceitá-los de volta. As empresas que fabricam ou que importam são responsáveis por esse sistema todo, isso quer dizer, que devem financiar esse ciclo reverso do material. Bom, na realidade sabemos que a coisa é um pouco mais complicada e para que as leis funcionem bem e não virem as conhecidas “letra morta” devemos chegar a um acordo sobre como é o melhor jeito de fazermos isso juntos, por exemplo: você acha que levaria seus equipamentos para um local, ou gostaria que coletassem na sua casa? As lojas vão aceitar qualquer tipo de equipamento ou só os que venderam? Quem vai fazer essa coleta?

Você pode se dizer: mas não temos nem coleta seletiva, lixo eletrônico é só um detalhe. Você tem razão, precisamos urgentemente da coleta seletiva do lixo comum, em volume ele é bem maior. O problema é que o lixo eletrônico é muito mais tóxico: chumbo, cádmio, berílio e outros metais pesados podem contaminar o solo e causar sérios danos a saúde muito mais rápido, já produzimos 40 milhões de toneladas de lixo eletrônico no mundo. Nem os aterros sanitários são indicados para esse tipo de lixo. Em alguns locais a poluição causada pela reciclagem artesanal já é alarmante.  A educação ambiental é essencial nesse processo, se as pessoas em casa, na empresa, no escritório, em entidades públicas e da sociedade civil não se convencerem da necessidade de termos esse cuidado, nada vai para frente.

Temos direito de saber o que comemos, o que estamos jogando nos rios e no solo. Como está sendo reciclado nosso lixo eletrônico. O controle social precisa ser exercido para cobrarmos de cada responsável o seu quinhão. Para termos mais consciência sobre nosso nível de consumo, sobre quais químicos e tóxicos são usados na fabricação dos equipamentos, como eles poderiam ser mais sustentáveis, durar mais etc. É necessário que haja estatísticas e informações sendo geradas constantemente nesses sistemas. A Campanha pretende apresentar com transparência seus resultados e meios para que possamos todos pensar em melhores alternativas para o sistema.

Ok. Já sabemos que as indústrias produtoras e importadoras devem pagar pelo sistema de lixo eletrônico. Mas a grande questão é: como vão pagar? e pelo que? Existem algumas modalidades de financiamento para sistemas como esse de “logística reversa” testados no mundo. O consumidor paga na hora da compra, o fabricante embute no preço do equipamento, esse dinheiro vai para um fundo único, ou é descontado direto de algum imposto e gerido pelo poder público. São questões que agora devem ser negociadas e são as principais. Mas não se engane, no final o consumidor ou a população pagará o custo, é importante sabemos como é mais transparente e melhor para todos nós.

A função de todo esse sistema é a reciclagem para que as substâncias perigosas causem menos estrago e que a gente pressione menos o meio ambiente na mineração de nova matéria-prima para fabricar novos equipamentos.

A ONU indica em seu relatório sobre o assunto, que o melhor jeito de tratar o lixo eletrônico é antes de mais nada tentar fazer o Reuso, ou seja consertar e remontar equipamentos e peças que possam ser usadas para aprendermos tecnologia, fazermos inclusão digital, exercermos nossa criatividade, criarmos arte etc. No Brasil temos uma rede que pensa e faz isso a algum tempo, se chama Rede Metareciclagem, uma rede de gente que coloca a mão-na-massa e a tecnologia a serviço das pessoas.

A ONU também indica que a reciclagem tem que ser feita através da desmontagem manual de cada peça, segundo cada substância que vai para uma indústria diferente posteriormente.  Isso também quer dizer que esse trabalho, para ser bem feito, absorverá deve contar com muitas pessoas, ou seja, podemos gerar trabalho e renda em uma atividade ambientalmente adequada.

Para que cada local saiba o tamanho do problema que tem que resolver precisa conhecer como o lixo é tratado hoje em dia: que quantidade e como esse lixo vai parar em lixões, rios, aterros e quais são as experiências de tratamento responsável que já existem como a Ecoletas e da Casa de Cultura Livre em Fortaleza, a Coopermiti em São Paulo.

A Cewaste já começou uma pesquisa desse tipo, apresentada no I Seminário de Resíduos Eletrônicos do Ceará. Previmos na Campanha continuar essa pesquisa para saber como está o lixo eletrônico, como você se mobilizará para tratar dele, assim como empresas e instituições e também o que o Ceará já tem feito sobre isso. Vamos tentar um mutirão?

Na mídia – até março 2011

Divulgação espontânea do trabalho na mídia:

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=748170
http://blog.opovo.com.br/tecnosfera/coleta-de-lixo-eletronico-em-fortaleza-ajude-nesta-ideia/
http://blog.opovo.com.br/campelo/coleta-de-lixo-eletronico-em-fortaleza/
http://www.lixoeletronico.org/blog/semin%C3%A1rio-de-res%C3%ADduos-tecnol%C3%B3gicos-em-fortaleza
http://www.sindpdce.org.br/noticias/texto_clipping.php?id=75

Parceria Ecoletas e Ceará em Foco

Três instituições tomam a frente na prática de tratamento de lixo eletronico em Fortaleza. A partir de diagnóstico da situação da situação no estado, foi feito o I Seminário Estadual de Lixo Eletronico, de onde surgiu um GT permanente e aberto para discutir saídas para a implantação de um sistema estadual, com princípios ambientais adequados.

A parceria permite que haja na prática, o reuso e a reciclagem de lixo eletronico aconteçam, de acordo com o que recomendado no relatório da ONU sobre o tema.

Veja como funciona: